Saúde mental faz jovens desistirem de vagas e empregos

saúde mental e mercado de trabalho

A saúde mental já influencia decisões de jovens brasileiros sobre entrar ou permanecer no mercado de trabalho. Um levantamento da Rede Cidadã, organização que atua na inclusão produtiva, mostra que 37,9% dos entrevistados entre 21 e 25 anos já desistiram de um processo seletivo ou pediram demissão de um emprego por impactos negativos na própria saúde mental.

O mapeamento foi realizado com usuários da Taqe, plataforma digital de empregabilidade da Rede Cidadã. Na apresentação dos dados, a organização informa uma base de 2.217 usuários. Já o quadro final do levantamento aponta 2.326 jovens respondentes em âmbito nacional. Os participantes são integralmente usuários da plataforma.

A diferença aparece também na evolução dos indicadores por faixa etária. Entre os jovens de 16 a 20 anos, 20,1% já haviam abandonado processos seletivos ou deixado empregos por motivos relacionados ao impacto psicológico do trabalho. Entre 21 e 25 anos, o percentual chega a 37,9%.

Os dados indicam que as experiências dos primeiros anos de carreira podem alterar a relação dos jovens com oportunidades profissionais. O impacto da saúde mental aparece tanto na decisão de permanecer em um emprego quanto antes da contratação, durante os processos seletivos.

“Os indicadores mostram que o desgaste com o ambiente de trabalho e as exigências corporativas não é abstrato: ele já se converte em perda real de talentos para as organizações. As empresas precisam construir ambientes psicologicamente seguros e rotinas sustentáveis para que esses profissionais consigam permanecer e se desenvolver”, destaca Fernando Alves, diretor-executivo da Rede Cidadã.

Pedidos de demissão crescem entre os jovens de 21 a 25 anos

Quando os motivos são separados, a diferença entre as faixas etárias fica mais evidente. Entre os participantes de 16 a 20 anos, 8,6% afirmam já ter pedido demissão em razão do impacto do trabalho sobre a saúde mental. O percentual sobe para 24,8% entre os jovens de 21 a 25 anos.

A desistência de oportunidades antes mesmo da contratação também aumenta. Entre os entrevistados de 16 a 20 anos, 16% já abandonaram processos seletivos diante do risco de desgaste psicológico. Na faixa de 21 a 25 anos, esse índice chega a 27%.

Assim, os dados contemplam dois momentos distintos da relação com o mercado de trabalho: a desistência de uma vaga antes da contratação e a saída de uma posição já ocupada. Nos dois casos, o impacto percebido sobre a saúde mental aparece entre os fatores relacionados à decisão.

Equilíbrio pesa na escolha por uma vaga

O levantamento também mostra que a necessidade de renda convive com uma busca por condições de trabalho consideradas mais equilibradas. Mesmo com a preferência por modelos que ofereçam maior flexibilidade, a disposição para aceitar uma oportunidade presencial permanece elevada.

Segundo a pesquisa, 95,5% dos entrevistados aceitariam uma vaga 100% presencial caso recebessem uma oferta naquele momento. O dado aparece em um grupo no qual 54% possuem renda familiar inferior a meio salário mínimo per capita.

Ao mesmo tempo, 72,2% afirmam que aceitariam uma remuneração menor para trabalhar remotamente, em home office. O percentual chega a 78,8% quando a troca envolve abrir mão de ganhos financeiros maiores por uma posição que proporcione equilíbrio entre vida pessoal e carreira.

Os resultados colocam remuneração, modelo de trabalho e qualidade de vida entre os elementos considerados pelos jovens na busca por oportunidades. A necessidade imediata de emprego não elimina, portanto, a importância atribuída às condições da rotina profissional.

Para as empresas, o levantamento relaciona esse cenário ao desafio de atração e permanência de profissionais mais jovens. A decisão de aceitar uma vaga pode envolver não apenas o salário oferecido, mas também a percepção sobre o ambiente e a possibilidade de conciliar trabalho e vida pessoal.

“Para a liderança e para as áreas de gestão de pessoas, o levantamento funciona como um alerta: a atratividade salarial não é suficiente para blindar equipes contra o turnover precoce. Remuneração, saúde emocional, modelo de atuação e cultura interna compõem uma equação integrada nas escolhas dessa nova força de trabalho”, conclui Alves.

Números do levantamento

  • 2.326 jovens respondentes em âmbito nacional, segundo o quadro final apresentado pela Rede Cidadã.
  • 37,9% dos jovens de 21 a 25 anos já deixaram processos seletivos ou empregos por questões relacionadas à saúde mental.
  • 24,8% dos entrevistados de 21 a 25 anos já pediram demissão pelo impacto emocional do trabalho.
  • 78,8% preferem equilíbrio entre vida pessoal e carreira a ganhos financeiros mais elevados.
  • 72,2% aceitariam salário menor em troca da possibilidade de trabalhar remotamente.
  • 95,5% aceitariam uma vaga 100% presencial diante de uma oferta imediata.
  • 54% possuem renda familiar abaixo de meio salário mínimo per capita.
  • A base é formada integralmente por usuários da Taqe, plataforma de empregabilidade da Rede Cidadã.
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