tendências de consumo

O jeito de morar, se deslocar e consumir está mudando, e os produtos começam a acompanhar essas transformações. Casas menores abrem espaço para equipamentos mais compactos e multifuncionais. Novas formas de mobilidade ampliam as possibilidades de deslocamento. Nos interiores, materiais, cores e objetos ganham novas funções e ajudam a tornar os ambientes cada vez mais pessoais.

Em 2027, alguns desses movimentos devem ganhar força. A tecnologia estará mais presente no dia a dia, nem sempre de maneira evidente. Pode estar em uma função que facilita uma tarefa, em um produto que reúne diferentes possibilidades de uso ou em uma plataforma que torna mais simples encontrar a solução certa. Ao mesmo tempo, preço, eficiência, durabilidade e praticidade continuam pesando na escolha.

Essa mudança também chega à indústria e ao varejo. Com tendências que surgem e se espalham em menos tempo, desenvolver produtos exige acompanhar mais de perto o comportamento do consumidor. No ponto de venda, a experiência ganha importância, assim como a capacidade de mostrar como diferentes produtos podem fazer parte de uma mesma solução.

É um cenário em que as fronteiras entre categorias ficam menos definidas. Um eletrodoméstico passa a conversar com a arquitetura da casa; a tecnologia entra em veículos e serviços; e objetos de decoração acompanham novas formas de viver os espaços. Ao mesmo tempo, características que antes pareciam secundárias, como personalização e design, passam a dividir espaço com atributos básicos como preço e funcionalidade.

Para entender o que pode ganhar força em 2027, a Eletrolar News ouviu empresas que acompanham essas mudanças de perto. Nas próximas páginas, executivos dos mercados de eletroeletrônicos, mobilidade e design de interiores contam o que já estão enxergando e como essas tendências começam a aparecer nos produtos, nos espaços e nas ruas.

MAIS FUNÇÕES, MENOS ESPAÇO

Em 2027, eletrodomésticos menores, mais versáteis e capazes de entregar mais funções devem ganhar a preferência. A combinação entre redução dos ambientes, busca por praticidade e necessidade de controlar gastos começa a mudar tanto os produtos quanto os atributos valorizados pelo consumidor.

Na Praxis, esse movimento aparece principalmente na aposta em equipamentos ultracompactos. Denis Fornari, gerente Comercial Nacional e Marketing da companhia, vê uma oportunidade ainda pouco explorada pela indústria. “Os apartamentos estão diminuindo. A indústria ainda não percebeu isso.”

A tendência não é apenas reduzir tamanho, mas aproveitar melhor cada centímetro. Karin Fischer, diretora Comercial e de Marketing da Fischer, aponta a multifuncionalidade como um dos caminhos para 2027. A empresa já incorporou a função Air Fryer aos fornos de embutir e trabalha com recursos como controle gestual em coifas e inteligência artificial aplicada a air fryers.

Essa busca por mais possibilidades também deve chegar à estética. Fornari vê personalização e cores como formas de diferenciar produtos em um mercado cada vez mais próximo das commodities. “É fazer mais com menos, não seguir um líder do segmento, mas criar uma personalidade com o consumidor.”

Com cozinhas integradas e equipamentos cada vez mais expostos, o eletrodoméstico passa a participar da composição da casa. Para Karin, durabilidade, multifuncionalidade e design devem ganhar peso na decisão de compra. “O eletrodoméstico passou a fazer parte da arquitetura.”

A eficiência energética também deve deixar de ser apenas uma especificação técnica. Para Karin, o atributo passa a representar economia no dia a dia e sustentabilidade. Fornari observa o mesmo movimento e relaciona a procura por produtos mais econômicos às mudanças no clima e à necessidade de reduzir o consumo.

Enquanto os produtos ficam mais compactos e multifuncionais, o desenvolvimento também precisa acompanhar ciclos de tendência mais curtos. A Praxis passou a trabalhar com lançamentos trimestrais e ampliou os investimentos em ventilação, climatização e lavanderia. Na Fischer, a proximidade com consumidor e varejo aparece como parte desse processo de antecipação.

Para 2027, Fornari também identifica uma mudança na experiência de compra, com a integração entre loja física e e-commerce e maior uso do ponto de venda como espaço de demonstração.

Karin vê uma evolução semelhante, mas pela ótica da solução: “não basta mais pensar em categorias isoladas. Precisamos entender como as pessoas vivem, cozinham, organizam seus espaços e quais problemas querem resolver.”

CASAS GANHAM PERSONALIDADE

Personalização deve ser uma das palavras mais presentes no mercado de interiores em 2027. Para Gian Franccesco Cominatto, founder e CEO da AMAR Granitos e da GIFATTO, essa mudança aparece na relação entre consumidores, arquitetos e os próprios ambientes. “A principal mudança é que a casa passou a ser um ecossistema de vida. Trabalho, convivência, lazer, bem-estar e tecnologia acontecem no mesmo espaço.”

Na mesa, a busca por identidade aparece acompanhada de uma preocupação prática. Daniela Poffo, gerente de Marketing e Varejo da Copa&Cia, aponta louças, lugares americanos, taças, talheres e guardanapos entre as categorias com maior potencial de crescimento.

“São a base do cotidiano e da ocasião, os itens que nunca faltam e que sustentam o giro o ano inteiro”, afirma. O movimento alcança também travessas, porta-doces e outros produtos que podem cumprir mais de uma função.

Cominatto identifica um movimento semelhante na especificação de materiais. As características naturais das rochas, que durante muito tempo poderiam ser tratadas como variações a serem corrigidas, passam a ser parte do próprio desenho. “Veios, cristais, variações de tonalidade e características geológicas, que antes poderiam ser consideradas ‘imperfeições’, estão sendo percebidos como exclusividade.”

Além disso, as inspirações chegam cada vez mais rápido ao ponto de venda. Arquitetos, designers e redes sociais encurtaram o caminho entre uma referência e o consumo, segundo Daniela. Uma composição publicada nas redes pode gerar demanda em poucas horas, o que aumenta a importância de disponibilidade e pronta-entrega. Ao mesmo tempo, ela vê a curadoria como uma forma de filtrar o excesso de tendências. “Nem tudo que viraliza tem fôlego de venda.”

Para Cominatto, inteligência artificial e dados devem ampliar a capacidade de personalização, enquanto a singularidade dos materiais naturais pode ganhar ainda mais relevância. “Quanto mais digital e industrializado o mundo se torna, maior tende a ser o valor do que é natural, único e impossível de ser reproduzido exatamente.”

Essa combinação também abre espaço para competir por algo além de preço. Daniela aponta design autoral, agilidade e proximidade como vantagens da indústria nacional. Cominatto olha para outra frente: transformar as rochas brasileiras em produtos de design capazes de carregar sua origem. “Isso permite que o Brasil deixe de competir apenas por preço e passe a competir por autenticidade, design e exclusividade.”

DIVERSIFICAÇÃO DA MOBILIDADE

Em 2027, a transformação da mobilidade não estará apenas nos veículos que chegam às ruas, mas também na forma como a cadeia se organiza para atendê-los. Enquanto bicicletas e scooters elétricas avançam para novos públicos e usos, o mercado de reposição de autopeças se prepara para lidar com uma frota mais velha, uma quantidade maior de modelos e uma demanda crescente por informação e disponibilidade.

Para Thiago Clemente, gerente nacional de Aftermarketing da Rainha das Sete, esse cenário deve acelerar a integração digital da distribuição. A idade média dos automóveis e caminhões brasileiros já ultrapassa dez anos, enquanto a entrada de novas marcas, especialmente chinesas, multiplica modelos, versões e SKUs. Nesse ambiente, segundo ele, ganha força a consolidação de plataformas que reúnam catálogo, estoque e logística.

A mudança afeta toda a cadeia. Para fabricantes, a integração pode ajudar a reduzir rupturas e produtos parados; distribuidores e varejistas ampliam a presença digital e a capacidade de captar clientes; e as oficinas passam a localizar peças com mais autonomia. “Em um mercado puxado por frota envelhecida e SKUs cada vez mais variados, essa integração digital deixa de ser diferencial e vira condição essencial”, afirma Clemente.

A digitalização acompanha também a mudança no comportamento de compra. Pesquisa de preço, compatibilidade e disponibilidade já acontece online antes da decisão, aumentando a importância de catálogos atualizados e canais digitais. Na Rainha das Sete, a estratégia inclui plataformas para desktop, aplicativo e site, além da presença em marketplaces.

Na micromobilidade, a transformação ocorre em outra frente: a ampliação do mercado. Para Daniel Fitaroni, diretor de marketing da LAF, 2027 deve ser marcado pela diversificação dos veículos elétricos e pela chegada do segmento a públicos cada vez mais variados. “Antigamente a gente falava que a micromobilidade era o futuro. Hoje dizemos que é o presente.”

Segundo o executivo, jovens, adolescentes e pessoas mais velhas já fazem parte desse mercado, enquanto algumas famílias passaram de um para dois ou três veículos elétricos. A presença crescente nas ruas também ajuda a reduzir a resistência de consumidores que antes não conheciam os produtos.

A próxima etapa envolve tecnologia e novos usos. A LAF prepara uma scooter com CarPlay e Android Auto, permitindo utilizar o Waze sem depender de suportes convencionais para celular. Rastreamento, inteligência artificial aplicada à segurança, carregadores mais rápidos e maior resistência à água também aparecem entre os desenvolvimentos citados por Fitaroni.

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