Em oito décadas, a JBL atravessou transformações profundas na forma de produzir, ouvir e consumir música. De Hollywood aos grandes shows, dos estúdios às casas, a marca construiu sua história acompanhando novos hábitos e encontrou no Brasil o seu segundo maior mercado do mundo.
Em entrevista à Eletrolar News, Rodrigo Rihl Kniest, VP sênior e diretor-geral de Lifestyle para a América do Sul e presidente da Harman do Brasil, dona da JBL, diz que essa capacidade de interpretar diferentes estilos de vida está no centro da longevidade da marca. Ele relembra momentos decisivos da trajetória da companhia, fala sobre a influência do consumidor brasileiro no desenvolvimento de produtos e projeta os próximos capítulos de uma indústria em constante transformação.
CONFIRA A ENTREVISTA:
ELETROLAR NEWS – A JBL COMPLETA 80 ANOS EM 2026. QUAIS MOMENTOS VOCÊ DESTACARIA COMO MAIS IMPORTANTES?
RODRIGO RIHL KNIEST – O primeiro grande momento é o seu nascimento, com James B. Lansing, gênio, cientista, uma pessoa que tinha uma criatividade fantástica. Ele desenvolveu um alto-falante e alguns sistemas de som que são usados até hoje.
Um dos primeiros mercados que ele atacou foi Hollywood, quando o cinema passou a ter som. E era um grande desafio fazer um som que ficasse bom em uma sala grande. Depois, James migrou para grandes shows, então entrou no mercado dos estúdios de gravação, que ficaram impressionados pela qualidade.
Passando décadas, ele foi arrojado ao lançar um produto que acabou sendo usado na casa das pessoas. O primeiro produto foi a caixa de som L100, que era para audiófilos, ou seja, pessoas que amam a música, e endinheirados, que podiam comprar isso na década de 70. E esse foi um grande momento, porque daí entrou na casa das pessoas. Depois, foi uma questão de tempo para começar a popularizar e trazer outras soluções mais econômicas.
Não posso esquecer de mencionar que em 1969, se não me engano, a JBL foi adquirida pela Harman. Foi isso que deu a possibilidade de a JBL ter escala maior para começar a pensar em entrar na casa das pessoas, porque até ali ainda era meio que um ateliê de equipamento de som, de tecnologia, com uma produção limitada.
Essa evolução acabou se transformando de novo quando, em 2017, a Samsung comprou a Harman como um todo.
COMO, AO LONGO DE OITO DÉCADAS, A JBL CONSEGUIU SE MANTER RELEVANTE?
Eu acho que a raiz de tudo é essa questão de entender quem vai ser o usuário. Mais do que o mercado, mais do que o segmento. Tem uma segmentação muito aprofundada para entender cada modo de uso dos nossos equipamentos.
Esse é o core e o núcleo do sucesso da JBL. Porque não é só uma segmentação, por exemplo, de faixa etária, mas de estilo de vida.
E a empresa sempre se preocupou muito em se comunicar com esses grupos segmentados.
O BRASIL É O SEGUNDO MAIOR MERCADO DA JBL NO MUNDO. QUAL A IMPORTÂNCIA DO NOSSO MERCADO?
Os Estados Unidos são os primeiros, e nós somos o segundo do mundo. Estamos à frente de países muito importantes. Estamos à frente de Alemanha, China, Índia, Japão, por exemplo.
A JBL comprou uma empresa brasileira, a Selenium, que fabricava alto-falantes e sistemas de som para o mercado profissional de áudio e para o mercado de automóveis. Quando ela entrou no Brasil, eu me atrevo a dizer que a JBL, naquela época, já tinha dezenas de anos de idade. E se somou com os 52 anos de idade que a Selenium tinha de conhecimento do mercado brasileiro. Naquela época, eu estava lá, eu era o CEO da Selenium, e nós já exportávamos para 72 países no mundo.
Esse foi um ponto importante para o sucesso. O segundo é a adaptação ao Brasil. O nosso mercado tem algumas características muito singulares. A questão de como a energia elétrica chega aos equipamentos, com picos e variações de voltagem, até as questões mercadológicas de preferência do som. Nós gostamos de um som mais bombado, um som mais vívido.
E, em um terceiro momento, nós começamos a criar produtos. E criamos produtos até hoje. Porque, com a Selenium a gente inventava produtos. Com a JBL do Brasil, nós continuamos fazendo produtos, continuamos inventando produtos que depois são usados em outros mercados.
Um deles é a PartyBox. A gente pediu há mais de 10 anos para ter a torre de som. A JBL Boombox já era um grande sucesso no Brasil, com a maior demanda mundial. Mais de um terço de todas as boomboxes do mundo são vendidas no Brasil. Mas essa era a maior caixa de som que tínhamos para a casa das pessoas.
O consumidor brasileiro acaba mostrando os caminhos para desenvolver produtos. A gente escuta, a gente entende com a nossa engenharia, com o nosso marketing, que avalia mercados potenciais para a gente entrar.
PODEMOS DIZER QUE O BRASIL É UM CELEIRO DE INOVAÇÃO PARA A JBL?
Sem dúvida. O EasyThink, por exemplo, não vou dizer que fomos nós que inventamos, mas nós pedimos. Quando vimos, anos atrás, protótipos de uma caixa de som que iria usar IA para separar trilhas sonoras de música, falamos sobre ter um produto que fosse um karaokê.
QUAIS SÃO OS DESAFIOS DO MERCADO BRASILEIRO?
O primeiro desafio no Brasil é o Brasil. Toda a carga tributária, todo o custo brasileiro, todas as dificuldades logísticas, isso é normal. Todas as empresas têm essas dificuldades e, honestamente, a gente sente isso como um desafio para fazer melhor.
Mas uma coisa que incomoda bastante e que a gente tenta trabalhar junto até com instituições do governo é a questão da pirataria.
Tem vários níveis de pirataria. Tem a pirataria premium, que faz uma cópia do teu produto, bota lá o JBL, até coisas mais sutis, como empresas que pegam o design, pegam o jeito do produto, põem outras letras lá, mas com a mesma grafia, faz alguma coisa para parecer uma JBL.
Nós temos uma preocupação muito grande de adaptar, certificar, ter o produto 100% adequado ao mercado nacional. Em outros lugares do mundo, temos produtos que não estão certificados no Brasil, mas às vezes vêm uma importação ilegal.
QUAIS CATEGORIAS DEVEM GANHAR MAIS ESPAÇO NO BRASIL?
A categoria de headphones, pois tem características especiais. Ele é um equipamento de áudio, só que, por um lado, ele é a tua bolha e é uma expressão da tua personalidade. É como se fosse um artefato decorativo que você leva no seu dia a dia, que mostra quem você é.
Essa é uma categoria que eu acho que cada vez mais as pessoas vão descobrindo que é uma expressão da sua personalidade, que tem o uso ideal para cada momento e vão acabar colecionando headphones. Então, por causa disso, acho que é o que mais tem potencial.
OLHANDO PARA OS PRÓXIMOS 80 ANOS, O QUE PODEMOS ESPERAR DA JBL?
Muita inovação, muita qualidade, muito entendimento. A JBL foi abrindo novos mercados, foi se posicionando em novas formas de degustação do som, tanto do ponto de vista profissional como de lazer. E ela sempre se adaptou muito bem fazendo isso.
A sociedade tem os seus momentos, e a empresa está sempre muito alerta para evoluir junto, trazendo novas soluções com qualidade, com inovação, para esses novos momentos.
Para os próximos 80 anos, eu acredito fortemente que a marca vai continuar fazendo isso, trazendo novos produtos, novas formas de curtir som, curtir áudio. À medida que as coisas vão evoluindo, os costumes vão evoluindo.


