O Mercado Livre abriu uma nova frente na disputa pela conveniência no varejo brasileiro. A companhia anunciou em São Paulo o Envios Agora, modalidade que prevê entregas em até 60 minutos para produtos de até 15 quilos, e também começou a comercializar medicamentos que exigem receita, com análise por farmacêuticos antes do envio.
A StartSe destaca que as duas iniciativas foram anunciadas durante o Mercado Livre Experience e ampliam a atuação da companhia em categorias nas quais velocidade de entrega e proximidade do estoque têm peso importante na decisão de compra. O Envios Agora está em fase piloto em bairros selecionados de São Paulo, com previsão de expansão para toda a cidade e, posteriormente, para outras regiões.
A proposta depende de uma operação diferente da logística tradicional do marketplace. Para cumprir o prazo de até uma hora, os produtos precisam estar armazenados próximos aos consumidores. Isso exige uma rede de parceiros e uma estrutura de distribuição capaz de trabalhar com pedidos concentrados em determinadas áreas.
Fernando Yunes, VP executivo de Commerce Latam, reconheceu que a companhia ainda precisa construir parte dessa estrutura. Questionado sobre a malha de entregadores necessária para a operação, afirmou: “Nós ainda não temos, mas vamos criar, começando por São Paulo”.
A declaração indica uma mudança na dinâmica logística do Mercado Livre. A infraestrutura construída pela companhia ao longo dos últimos anos para operações com prazos maiores não é suficiente para atender a uma modalidade baseada em entregas de curtíssimo prazo. O modelo exige estoque posicionado mais perto do consumidor e uma operação específica para a última etapa da entrega.
Disputa pela entrega rápida
O movimento coloca o Mercado Livre em uma disputa que já envolve diferentes plataformas. O iFood opera o Turbo, com entregas em até 20 minutos, enquanto a Amazon lançou o Amazon Now, com promessa de entregas em até 15 minutos. No setor farmacêutico, a Drogasil também trabalha com prazo de até uma hora.
A diferença está na amplitude do catálogo que o Mercado Livre pretende levar para essa modalidade. Enquanto serviços de entrega rápida de outros players têm origem ou maior concentração em alimentação, mercado ou produtos de reposição, o marketplace trabalha com uma variedade maior de categorias.
O Envios Agora amplia, portanto, a importância da localização do estoque dentro da estratégia de marketplace. Para que a promessa de entrega seja cumprida, não basta ter o produto disponível na plataforma. Ele também precisa estar em uma posição logística compatível com o prazo oferecido ao consumidor.
Medicamentos entram na operação
A outra frente anunciada pelo Mercado Livre envolve a venda de medicamentos com receita. O processo começa com o envio da prescrição pelo consumidor. Antes da liberação do pedido, um farmacêutico do vendedor faz a análise e a aprovação da receita.
Entre os exemplos mencionados estão antibióticos e canetas para diabetes. O vendedor fica responsável por manter uma cópia da prescrição, enquanto o Mercado Livre informa que elimina a sua após dois meses.
A operação começa com uma farmácia própria do Mercado Livre e deve ser ampliada por meio da integração de redes parceiras. Segundo as informações divulgadas, a companhia pretende ter mais de 20 redes integradas na Região Metropolitana de São Paulo até o fim do ano. Três delas devem entrar na operação já em outubro.
O modelo segue a lógica do marketplace da companhia, no qual aproximadamente 95% das vendas totais são realizadas por terceiros. Em vez de concentrar a operação farmacêutica em uma única rede, a estratégia permite reunir diferentes vendedores dentro da plataforma.
O mercado também representa uma oportunidade relevante para o comércio eletrônico. O setor farmacêutico brasileiro movimenta cerca de R$ 200 bilhões por ano, enquanto aproximadamente 10% desse montante, ou cerca de R$ 20 bilhões, passa pelo comércio eletrônico, segundo a Bloomberg Línea.
Regulação está no radar
A expansão da venda de medicamentos com receita ocorre enquanto a regulamentação do comércio eletrônico de medicamentos passa por novas discussões. Em agosto, a Anvisa abriu um processo para definir regras para esse tipo de operação.
A retirada de restrições anteriores não representa, por si só, uma autorização automática para todos os formatos de comercialização. A Abrafarma, associação que reúne grandes redes de farmácias, também sinalizou que pretende questionar o modelo junto ao regulador.
A discussão coloca o avanço dos marketplaces sobre o setor farmacêutico em um ambiente que envolve regras específicas para comercialização de medicamentos e participação de profissionais habilitados. O desenvolvimento da regulamentação deverá influenciar a forma como plataformas digitais e redes de farmácias poderão estruturar esse tipo de operação.
O impacto para o varejo
A combinação entre entrega rápida e ampliação do marketplace modifica a referência de conveniência para o consumidor. A comparação deixa de acontecer somente entre empresas do mesmo segmento e passa a considerar experiências de compra realizadas em diferentes categorias.
A logística também ganha peso na estratégia comercial. Uma operação de entrega em até uma hora depende de concentração de pedidos, disponibilidade de estoque e posicionamento dos produtos próximos às regiões de maior demanda. Nesse modelo, a localização do inventário passa a fazer parte da experiência de compra.
Para redes varejistas, a infraestrutura física pode assumir outra função dentro dessa lógica. Lojas e unidades distribuídas pela cidade podem ser utilizadas como pontos próximos ao consumidor, conectados a operações digitais e marketplaces. No caso das farmácias, esse modelo pode ganhar relevância à medida que mais redes passem a integrar suas operações a plataformas digitais.
O avanço do Mercado Livre nessas duas frentes também aproxima o marketplace de categorias nas quais a rapidez da entrega tem relação direta com a necessidade do consumidor. Com o Envios Agora, a companhia testa uma estrutura de entregas em até 60 minutos. Na área farmacêutica, amplia o catálogo para medicamentos com receita e busca incorporar novas redes parceiras à plataforma.



