A eletrificação da frota brasileira já começa a mudar um setor que costuma aparecer pouco nas discussões sobre a transição energética: o mercado de reparação automotiva. Com mais de 1 milhão de veículos eletrificados em circulação no País, oficinas mecânicas e elétricas passam a lidar com uma demanda que exige novos equipamentos, procedimentos e profissionais capacitados.
O avanço ganhou velocidade em 2026. Entre janeiro e setembro, foram emplacados 389.304 veículos eletrificados no Brasil, volume próximo das 398 mil unidades registradas entre 2012 e 2024, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
A diferença em relação ao início da série histórica ajuda a dimensionar a transformação. Em 2012, apenas 117 veículos eletrificados foram registrados no País. Em 2024, o número chegou a 177.358 unidades e, em 2025, alcançou 223.912. Em apenas nove meses de 2026, o mercado já acrescentou quase 390 mil veículos à frota.
Com mais carros elétricos e híbridos circulando, cresce também a necessidade de uma rede de manutenção preparada para atender essa nova geração de veículos.
Uma nova tecnologia, novos procedimentos
A manutenção de um veículo eletrificado envolve mais do que a adoção de novas ferramentas. Os profissionais precisam lidar com sistemas de alta tensão, baterias de íon de lítio e componentes de eletrônica de potência, além de seguir protocolos específicos para evitar acidentes.
Em alguns modelos, cabos e componentes podem trabalhar com tensões superiores a 380 volts. Por isso, intervenções nos sistemas elétricos exigem equipamentos de proteção individual, áreas de trabalho adequadas e procedimentos específicos de desenergização.
“A eletrificação da frota é um caminho sem volta no Brasil, mas a transição para as oficinas não pode ser feita na base do improviso. Atender um veículo elétrico exige muito mais do que ferramentas específicas; exige processos mapeados, adequação rigorosa de infraestrutura e uma cultura inegociável de segurança em alta tensão”, afirma Ivan Aécio Bernardo Martins, coordenador de Otimização de Manufatura e Eficiência Energética do Senai Tecnologia e Inovação do Paraná.
Para o especialista, a preparação antecipada também pode ajudar os empresários a controlar os custos da adaptação.
“A ideia é que ele saiba exatamente onde, quando e quanto investir, reduzindo custos desnecessários e garantindo que sua equipe trabalhe protegida e pronta para extrair a máxima rentabilidade dessa nova frota”, explica.
Preparação pode acontecer por etapas
A adaptação de uma oficina para atender veículos eletrificados não precisa ocorrer de uma só vez. O Programa Oficina do Futuro propõe diferentes níveis de preparação, de acordo com a estrutura e os serviços que cada empresa pretende oferecer.
O primeiro estágio envolve serviços que não exigem intervenção direta nos sistemas de alta tensão, como inspeções visuais, suspensão, freios e pneus.
Em um segundo nível, a oficina passa a estar preparada para procedimentos de diagnóstico e manutenção técnica, incluindo desenergização segura, testes de isolamento e reparos em componentes de baixa tensão.
O terceiro nível envolve intervenções mais complexas, como trabalhos na bateria de tração e em inversores. Nessa etapa, são necessárias instalações específicas, áreas segregadas e medidas adicionais de proteção.
Além dos níveis de atendimento, o programa avalia a maturidade das empresas em uma escala que vai do Nível 0, quando ainda não estão preparadas para esse tipo de serviço, ao Nível 4, classificado como EV Ready.
A avaliação considera infraestrutura elétrica, equipamentos, qualificação da equipe e procedimentos de segurança. Ao final, a empresa recebe um plano de ação baseado na metodologia 5W2H, com prioridades, investimentos, prazos e adequações.
Nova frota abre espaço para oficinas independentes
A expansão dos veículos elétricos e híbridos também pode criar uma nova frente de negócios para oficinas independentes.
Parte dos modelos eletrificados vendidos no Brasil, nos primeiros anos de expansão da categoria, começa a se aproximar do fim dos períodos de garantia. Com isso, a manutenção tende gradualmente a se deslocar também para fora das redes autorizadas.
Para as oficinas, antecipar a preparação pode significar entrar em um mercado ainda em formação e desenvolver competências antes que a demanda se torne mais ampla.
“Não se trata apenas de acompanhar uma tendência tecnológica. Trata-se de preparar o negócio para uma transformação que já está acontecendo na rua. A oficina que começa a entender esse movimento agora terá melhores condições de definir seu posicionamento e investir de forma mais assertiva”, destaca Ivan.
A mudança, portanto, não está apenas nos carros que chegam às ruas. Ela também começa a transformar os bastidores da mobilidade, exigindo que o setor de reparação acompanhe a velocidade da eletrificação da frota brasileira.



