Trinta anos depois de criar a 6F, Marcelo Felmanas resume uma das principais mudanças em sua maneira de conduzir o negócio em poucas palavras: hoje, escolhe menos e melhor.
A frase ajuda a entender uma trajetória construída na intersecção entre arte, design e gestão. Formado em Administração, Felmanas cresceu em uma família de galeristas, estudou história, estilos e materiais na Sotheby’s, em Nova York e Paris, e trabalhou com móveis e antiguidades antes de consolidar a 6F.
Essa combinação entre repertório estético e visão empresarial se tornou parte da própria estrutura da companhia.
“Existe a curadoria, a pesquisa, a busca pelo novo, mas existe também uma empresa que precisa tomar decisões, entender o mercado e construir relações de longo prazo. Depois de 30 anos, vejo que uma coisa nunca existiu sem a outra”, afirma Marcelo.
Menos produtos, mais clareza de posicionamento
Se no início da operação havia uma vontade natural de conhecer e trazer muitas novidades, três décadas de mercado mudaram o processo de seleção.
“Quando você começa, quer descobrir tudo, conhecer tudo, trazer tudo. Com o tempo, aprende a editar o próprio olhar”, diz.
Hoje, Felmanas afirma identificar com mais rapidez aquilo que faz sentido para a 6F. O critério não significa abandonar a novidade, mas deixar de enxergá-la como valor suficiente por si só.
“O novo continua me interessando muito, mas não simplesmente porque é novo.”
A reflexão toca em um desafio recorrente no varejo e na distribuição: ampliar o portfólio pode gerar volume, mas uma seleção coerente ajuda a construir identidade e reconhecimento no longo prazo.
No caso da 6F, essa escolha passa por técnica, materiais, história e design, mas há também um componente menos mensurável.
“Ainda é a emoção. Posso reconhecer a técnica, a qualidade do material, a importância de um designer ou a história de uma manufatura, mas, no final, a peça precisa me despertar alguma coisa”, afirma.
Casa 6F transforma exposição em contexto
Essa maneira de pensar a apresentação dos produtos ganhou outro formato com a Casa 6F.
O projeto começou em uma antiga residência de Marcelo e criou uma alternativa à exposição tradicional de produtos em feiras e showrooms. Em vez de peças isoladas, o público encontra objetos inseridos em ambientes e combinados com diferentes referências.
Para Felmanas, essa mudança de contexto interfere diretamente na percepção.
“Quando você tira os objetos do contexto tradicional de uma feira ou showroom e os coloca dentro de uma casa, eles passam a ser vistos de outra forma. As pessoas conseguem imaginar aquela peça sendo usada, misturada com outras referências, fazendo parte de uma vida.”
O formato também revelou outra função para o projeto. O ambiente residencial favoreceu conversas, encontros e negócios, fazendo com que a Casa 6F passasse a funcionar como plataforma de relacionamento e curadoria.
É uma discussão particularmente relevante para um mercado no qual marcas e fornecedores procuram novas maneiras de apresentar produtos e aprofundar relações com especificadores, parceiros e clientes.
Repertório também nasce fora do escritório
As viagens continuam sendo parte importante da pesquisa de Marcelo Felmanas, mas seu radar não se limita a lojas, feiras ou museus.
Ele observa mercados, restaurantes, arquitetura, artesanato, cores, materiais e, principalmente, a maneira como as pessoas vivem.
“Muitas vezes, o que mais surpreende não está em uma loja ou em um museu, mas na rua, em um objeto cotidiano ou em uma tradição local.”
É dessa combinação entre formação, observação e prática que nasce o repertório que depois chega às decisões de negócio.
E talvez essa seja também uma das lições mais interessantes de uma empresa que alcança três décadas: acompanhar o novo não significa perseguir tudo o que aparece.
Às vezes, maturidade empresarial está justamente em saber o que deixar de fora.
O que torna uma casa interessante?
Para Marcelo Felmanas, a resposta está menos em uma estética perfeitamente coordenada e mais na personalidade de quem vive naquele espaço.
Ele prefere ambientes construídos aos poucos, nos quais convivem peças de épocas diferentes, obras de arte, objetos de viagem, itens herdados e novas descobertas.
“Uma casa interessante vai sendo construída ao longo do tempo. Ela precisa contar alguma coisa sobre quem mora nela.”




