A Honda desenvolve, em parceria com a empreiteira japonesa Taisei Corporation e sua subsidiária Taisei Rotec, uma tecnologia capaz de recarregar veículos elétricos enquanto estão em movimento. O sistema utiliza módulos instalados sob o pavimento para transferir energia por indução a um receptor localizado na parte inferior do veículo.
Chamada de D-WPT (Dynamic Wireless Power Transfer), a tecnologia está sendo desenvolvida para atender tanto carros de passeio quanto caminhões pesados. A proposta é reduzir a necessidade de paradas para recarga e, em determinadas aplicações, permitir o uso de baterias menores.
Após os testes iniciais de transferência de energia e resistência do pavimento, o projeto avançará para uma nova etapa experimental no Japão. Até março de 2027, as empresas planejam instalar o sistema em um trecho de 40 metros de uma pista de testes de 900 metros, em Fukushima. A potência poderá chegar a 150 kW.
A partir de abril de 2027, a previsão é realizar testes em condições reais na Tateyama Expressway, na província de Chiba, próxima a Tóquio.
Como funciona a recarga por indução
O sistema utiliza bobinas instaladas sob o asfalto para gerar um campo magnético, que transfere energia a outra bobina montada na parte inferior do veículo. O receptor converte a energia recebida para alimentar a bateria.
A principal diferença em relação aos sistemas convencionais de recarga sem fio está na integração dos componentes instalados na pista. A Honda denomina GA (Ground Assembly) o módulo que reúne a bobina e o inversor responsável por alimentar o sistema.
A eletricidade é distribuída ao longo da via por cabos em corrente contínua. Em cada módulo, o inversor converte a energia para o funcionamento da bobina transmissora. No veículo, o conjunto receptor é chamado de VA (Vehicle Assembly).
Segundo a Honda, a integração da bobina e do inversor em uma única unidade pode reduzir a quantidade de cabos, conexões e equipamentos necessários ao longo da estrada, além de facilitar a instalação e a manutenção.
Transferência de energia em milissegundos
A recarga dinâmica exige que a energia seja transferida em intervalos muito curtos. A 80 km/h, o receptor do veículo permanece sobre cada módulo por aproximadamente 36 milissegundos.
Para viabilizar a transferência nesse intervalo, o sistema desenvolvido pela Taisei utiliza capacitores, que armazenam energia e permitem liberá-la rapidamente. Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, a potência pode se aproximar de 150 kW em cerca de 1,5 milissegundo.
A quantidade de energia recuperada depende de fatores como velocidade, consumo do veículo e extensão da via equipada. A Honda ainda não divulgou estimativas de autonomia adicional por quilômetro percorrido nem dados consolidados sobre o desempenho da tecnologia em escala comercial.
Resistência do pavimento é um dos desafios
Além da transferência de energia, o projeto precisa garantir que os componentes instalados sob o asfalto suportem o tráfego contínuo, inclusive de veículos pesados.
Nos ensaios iniciais, a passagem repetida de caminhões provocou rachaduras no pavimento sobre os módulos. Para solucionar o problema, as empresas ajustaram a rigidez dos equipamentos e a estrutura das camadas da pista.
Os testes já incluíram a passagem frequente de caminhões de 20 toneladas. Na próxima fase, estão previstos ensaios com veículos de carga de até 40 toneladas, além de avaliações de durabilidade por períodos mais longos.
O método de instalação desenvolvido pela Taisei Rotec prevê a remoção de parte do pavimento para acomodar os módulos. Depois da fixação das unidades e do preenchimento dos espaços com argamassa de cura rápida, uma nova camada de asfalto é aplicada.
Caminhões elétricos estão entre as aplicações previstas
A recarga durante o deslocamento pode ter aplicação especialmente relevante no transporte de cargas. Caminhões elétricos destinados a longas distâncias precisam de baterias maiores para ampliar a autonomia, o que aumenta o peso do veículo e pode reduzir sua capacidade de carga.
Com trechos de rodovias equipados para fornecer energia durante a viagem, parte do consumo poderia ser compensada ao longo do percurso. Essa possibilidade também poderia reduzir a dependência de paradas para recarga.
A tecnologia, no entanto, ainda depende de testes adicionais para demonstrar sua viabilidade operacional e econômica. Custos de instalação, manutenção, eficiência energética e compatibilidade entre veículos e infraestrutura estão entre os fatores que precisam ser avaliados antes de uma eventual adoção em larga escala.



