O Brasil está entre os países com maior potencial para receber o comércio agêntico, modelo em que agentes de inteligência artificial pesquisam, comparam e concluem compras em nome dos consumidores. A avaliação é de Leandro Garcia, diretor executivo de Soluções para Pagamentos Digitais da Visa do Brasil, que vê na evolução da tokenização no país um diferencial para acelerar a adoção da tecnologia. “Quando as empresas globais decidirem expandir depois dos EUA, o Brasil estará aqui para ser o primeiro da fila”, afirma, em entrevista ao All Connected Media.
A proposta muda a lógica do comércio eletrônico: em vez de navegar por sites, analisar avaliações e comparar produtos manualmente, o consumidor informa o que deseja e delega a busca à IA. A Visa já realizou a primeira transação agêntica no Brasil, em março, e trabalha na infraestrutura necessária para viabilizar pagamentos seguros por meio de agentes. A expansão, porém, depende também da preparação dos varejistas, da integração com plataformas de inteligência artificial e de mecanismos capazes de proteger credenciais e reduzir riscos de fraude.
Para Garcia, a transformação já começa a alterar a relação entre consumidores, marcas e canais de venda, inclusive antes de ganhar escala. Se, de um lado, os grandes varejistas precisarão tornar seus produtos mais relevantes para os algoritmos, de outro, o modelo pode abrir espaço para pequenos comerciantes nas buscas automatizadas. A Visa também mantém conversas com o Banco Central e avança na validação do sistema para ampliar sua utilização. O desafio agora é preparar o ecossistema brasileiro para uma modalidade de compra que promete transferir parte importante das decisões de consumo para agentes digitais.
Confira o bate-papo completo:
All Connected Media: Como a Visa enxerga o avanço do comércio mediado por agentes de inteligência artificial? Em que estágio essa transformação está e o que falta para que agentes realizem compras de forma autônoma?
Leandro Garcia: Quando olhamos lá atrás, as compras com cartão “presencial” começaram há mais de 30, 50 anos. Estamos evoluindo no e-commerce já há 30 anos, depois evoluímos mais há 10 anos com o comércio mobile. E há um ano a gente fala do comércio agêntico, que já virou realidade. A questão é quão rápido isso vai evoluir, e naturalmente é de se esperar que não demore.
Lançamos há um ano o comércio agêntico e, em março, fizemos a primeira transação. Já começamos a ver a mudança no comportamento das pessoas, na forma como elas usam uma IA para realizar uma compra.
All Connected Media: Como funciona, na prática, o comércio agêntico? O que muda em relação à experiência de compra que conhecemos hoje?
Leandro Garcia: Comércio agêntico é basicamente sair de um cenário em que o usuário busca, pesquisa, olha a telinha, vê foto, lê comentários e decide entre várias opções, depois de horas de análise, para basicamente delegar para uma IA: “Eu quero uma passagem aérea que custe até R$ 1.000 por tal empresa”, e acabou. Eu não me preocupo se o site é bonito, se está oscilando. Eu delego para uma ferramenta e espero que ela me traga a melhor opção com o comando que dei para ela.
All Connected Media: O que precisa mudar na infraestrutura de pagamentos para que um agente de IA possa concluir uma compra em nome de um consumidor? Como funcionam a autorização e a confirmação dessas transações?
Leandro Garcia: Alguns meses atrás, a Visa lançou o Visa Intelligent Commerce. É a infraestrutura tecnológica para permitir que uma IA faça o pagamento. São alguns padrões e protocolos para que a gente consiga que um agente de e-commerce que o usuário estiver usando, como ChatGPT, Copilot ou Claude, possa não somente pesquisar o que o usuário está pedindo, mas também comprar em nome do comprador.
Precisamos garantir que as IAs tenham capacidade de armazenar uma credencial Visa de forma segura e possam transacionar com segurança. Nós utilizamos um agente da Visa que desenvolvemos, implementamos nesse agente, cadastramos uma credencial e pedimos: “Compre um pack de cerveja que custe até R$ 60”. Ele pesquisou vários sites e comprou em um deles. O site não sabia que havia um agente navegando; para o comércio, era o usuário.
All Connected Media: Você mencionou a necessidade de preparar os estabelecimentos comerciais. Como essa adaptação funciona e quais são os principais desafios para integrar os varejistas ao comércio agêntico?
Leandro Garcia: Nós certificamos esse agente de IA, só que falta um outro pedaço, que é a preparação dos comércios. Eles precisam entender que é um agente acessando, para dar o devido tratamento à informação de que é a Laura que está acessando.
As compras em que o comércio opera com um guest checkout, ou seja, em que você não precisa se logar, já são possíveis. O agente acessa, faz a compra específica e obtém o resultado da compra para você. Aí é que entra a preparação do ecossistema do lado do comércio.
All Connected Media: Quando uma IA passa a realizar compras, como ficam a segurança das credenciais e a proteção contra fraudes? Como evitar que o agente compre em um site falso ou seja induzido ao erro?
Leandro Garcia: Um dos pontos principais quando falamos nessa compra é: e se a IA alucinar ou acessar um site fake? Dentro desse protocolo, há uma camada de certificação bem robusta para que a credencial, quando for guardada, seja muito segura, tokenizada. Tem uma amarração muito robusta para garantir que a credencial só seja usada por aquela IA.
Quando falamos da busca do comércio na ponta, a IA tem muito mais capacidade de detectar que um site é fake. E temos mecanismos de detecção de agentes para ter um nível muito elevado de confiança na identificação daquele e-commerce: quando foi criado, onde está hospedado, quais são as recomendações. Assim, a IA pode iniciar a conversa e considerar o comércio como uma possível opção de resposta à busca, de uma forma diferente do que estamos acostumados.
All Connected Media: Se os agentes de IA passarem a pesquisar, comparar e escolher produtos, como isso pode mudar a relação entre consumidores, varejistas, marketplaces e marcas?
Leandro Garcia: Já está mudando, antes até da primeira compra agêntica. Eu precisava comprar uma creatina, estava em casa e resolvi testar uma compra agêntica de ponta a ponta. Eu comprava o produto na farmácia e falei para a minha IA: “Compre esse produto mais barato perto de casa”.
Dois pontos importantes: ela me alertou, perguntando se eu queria comprar em marketplace ou não, caso eu escolhesse um marketplace com um vendedor novo. Aí ela me trouxe um vendedor de Curitiba, com prazo de entrega de dois dias. Depois, me trouxe um supermercado conhecido no Brasil, onde eu comprei. Eu nunca imaginei nem procurar lá.
All Connected Media: Essa experiência muda também a forma como as marcas e os varejistas precisam se posicionar no mercado? Como uma empresa pode se tornar relevante para uma IA que escolhe o que comprar?
Leandro Garcia: Como eu me torno relevante para uma IA? Não temos resposta ainda, mas tem muita gente trabalhando para transformar uma linguagem que era voltada para humanos em uma linguagem compreensível para as máquinas.
Desde a certificação dos agentes, que é preparada pela Visa, tem o lado dos emissores, para que as credenciais possam ser transacionadas com segurança, e tem a camada do comércio, que é o ICC, para ajudar os comércios a se conectarem com esse ecossistema e permitir que os catálogos sejam visíveis para os clientes.
Hoje, a tecnologia está acessível a todo tipo de comércio, porque esses estabelecimentos são suportados por grandes plataformas de e-commerce. A gente não precisa habilitar os comércios um a um. Quando falamos com uma credenciadora ou com uma plataforma de e-commerce, habilitamos todos os comércios do Brasil. Isso é o que nos permitiu acelerar a tokenização.
Isso também muda a dinâmica: os grandes são os mais lembrados e os que mais aparecem. O comércio agêntico pode trazer os pequenos para esse ambiente, enquanto os grandes terão que mudar a dinâmica e mostrar melhor seus produtos para a IA, inclusive por meio de recomendações.
All Connected Media: A Visa está desenvolvendo soluções para conectar esse ecossistema. Como elas funcionam e qual é o papel das parcerias com as plataformas de inteligência artificial?
Leandro Garcia: Tem uma parte que é para habilitar todo o ecossistema Visa. Quando conversamos com a IA, fala de habilitar a Visa; para o comércio, é se credenciar com a Visa. Mas temos uma solução que, por meio do ICC, é agnóstica e permite que comércios e IAs consigam se conectar com o mundo agêntico para outras bandeiras também.
Nós comunicamos globalmente uma parceria com a OpenAI. Eles estão certificando com a gente nos EUA, mas ainda não temos uma data para a habilitação no Brasil. Eu posso dizer que, depois da primeira transação em março no Brasil, isso vem acelerando muito para deixar o ecossistema todo pronto. Quando as empresas globais decidirem expandir depois dos EUA, o Brasil estará aqui para ser o primeiro da fila.
A gente está acelerando muito e tem um potencial muito grande para o Brasil.
All Connected Media: Qual é a posição do Brasil nesse cenário? O país está preparado para receber essa tecnologia e acompanhar sua expansão global?
Leandro Garcia: A base de tudo que falamos é a tokenização, e o Brasil é um dos países que mais estão avançados no mundo em tokenização. Isso nos torna grandes potenciais, depois dos EUA, para a habilitação das grandes IAs. Estamos preparando o Brasil para que, quando o modelo superar a fase de piloto lá fora, o país seja um dos primeiros a adotá-lo.
All Connected Media: Quais são os próximos passos para viabilizar esse tipo de transação no Brasil? O que precisa avançar em tecnologia, regulamentação, segurança e adesão das empresas para que o modelo ganhe escala?
Leandro Garcia: Estamos conversando com o Banco Central para mostrar esse ecossistema e estamos muito focados no sistema para validação. A dinâmica de compra muda porque eu posso dar uma intenção de compra para comprar na semana que vem. Só que depois eu não lembro. Como os emissores vão comunicar isso aos usuários? Estamos testando e validando para pensar em escala.



