88% das empresas não medem os resultados financeiros obtidos com a IA

A inteligência artificial já chegou às empresas brasileiras, mas ainda não se traduziu em uma estratégia estruturada para a maioria delas. Embora 80% das organizações testem ou utilizem a tecnologia, 93% ainda não a incorporaram efetivamente aos objetivos centrais dos negócios. O cenário foi apresentado nesta terça-feira (13), durante o primeiro dia do Universo TOTVS 2026, em São Paulo, a partir de um levantamento da MIT Sloan Management Review (SMR) Brasil encomendado pela TOTVS.

O estudo, intitulado “Da adoção à escala: a maturidade da inteligência artificial nas empresas brasileiras”, ouviu 583 empresas de diferentes portes, setores e regiões do país. Os resultados expõem uma contradição: enquanto a inteligência artificial avança no ambiente corporativo, sua utilização ainda ocorre, em grande parte, de maneira fragmentada, sem conexão consistente com os processos, as metas e os indicadores de desempenho das organizações.

A dificuldade não está apenas em implementar a tecnologia, mas em saber se ela está funcionando. Segundo a pesquisa, 88% das empresas não medem os resultados financeiros obtidos com a IA, e 86% não acompanham os custos associados à sua utilização. Além disso, 40% conduzem iniciativas sem coordenação entre as diferentes áreas.

“A adoção da IA já não diferencia mais ninguém; o que separa empresas de alta performance daquelas que ainda patinam hoje é a capacidade de incorporá-la à operação real. O estudo deixa claro que o mercado brasileiro ainda vive uma fase menos estruturada de adoção pulverizada. Usar a inteligência artificial apenas como um assistente isolado, sem atrelá-la às métricas e aos processos vitais da empresa, é deixar de gerar valor. O futuro pertence a quem conseguir transformar essa adoção desestruturada em produtividade mensurável, governada e estratégia de ponta a ponta”, destaca Gustavo Bastos, vice-presidente de Plataformas e TI da TOTVS.

Integração de dados ainda é um gargalo

A dificuldade de conectar a inteligência artificial à estrutura tecnológica das empresas aparece entre os principais entraves identificados pelo levantamento. Embora 68% das organizações considerem a migração para a nuvem uma realidade, apenas 46% afirmam que suas soluções de IA acessam automaticamente os dados corporativos.

A integração com os sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERP, é ainda mais limitada: somente 8% das companhias incorporaram amplamente a inteligência artificial a essas plataformas. Esses sistemas concentram informações e processos de diferentes departamentos e podem permitir que a tecnologia seja aplicada de forma mais abrangente à operação.

Sem acesso estruturado a dados confiáveis, a inteligência artificial tende a funcionar de maneira isolada, com menos capacidade de relacionar informações e apoiar decisões estratégicas. O desafio, portanto, não se resume à contratação de novas ferramentas, mas envolve a organização dos dados e a conexão entre sistemas.

“Não existe inteligência artificial escalável sem dados organizados, integrados e governança. O desafio hoje deixou de ser apenas a adoção de novas ferramentas, e passou a ser a conexão lógica entre os dados, os sistemas e a IA. Apenas quando a inteligência artificial estiver incorporada aos sistemas de gestão e em processos estruturados, operando com dados confiáveis e fluxos automatizados, é que as empresas conseguirão romper as barreiras dos 93% e criar verdadeiras organizações inteligentes”, complementa Bastos.

Capacitação profissional é decisiva para gerar resultados

A transformação da inteligência artificial em resultados concretos também depende de um fator que vai além da infraestrutura: as pessoas. Durante a coletiva de imprensa, a discussão sobre o uso corporativo da tecnologia destacou a importância de combinar capacidade tecnológica e inteligência humana para que a IA produza impactos positivos nas empresas.

A capacitação dos profissionais é parte central desse processo. As equipes precisam estar preparadas para operar as ferramentas, interpretar as informações geradas e aplicar os recursos de inteligência artificial de acordo com as necessidades do negócio. A tecnologia pode ampliar a produtividade e apoiar a tomada de decisões, mas não elimina a necessidade de conhecimento, senso crítico e supervisão humana.

“Oferecer programas de capacitação estruturados e, com isso, provocar as lideranças para redesenhar seus processos, são duas premissas que destacamos deste estudo para evoluir nos níveis de maturidade de IA e capturar resultados relevantes”, reforça Douglas Souza, CEO do CNEX – empresa que representa a MIT SMR no Brasil.

Os dados do levantamento ajudam a dimensionar essa lacuna. Segundo o estudo, 43% dos colaboradores têm receio de cometer erros por confiar excessivamente na IA, enquanto 37% afirmam não saber utilizar as ferramentas corretamente. Apesar dessas dificuldades, apenas 7% das empresas oferecem capacitação estruturada sobre o tema para todos os funcionários.

O cenário evidencia um descompasso entre a velocidade de adoção das ferramentas e a preparação dos profissionais para utilizá-las. Sem formação adequada, os colaboradores podem ter dificuldade para avaliar as respostas dos sistemas, identificar inconsistências e compreender os limites da tecnologia.

Governança e segurança também preocupam

Outro ponto de atenção é a falta de políticas abrangentes para orientar o uso da inteligência artificial. Embora a diretoria participe das decisões sobre a tecnologia em 43% das empresas, apenas 14% possuem uma política formal de governança aplicada a toda a organização.

A ausência de regras claras pode dificultar o controle sobre as ferramentas utilizadas, o acesso às informações e a responsabilização por decisões apoiadas em sistemas de IA. Não por acaso, 46% das companhias apontam o vazamento ou o uso indevido de dados como o principal risco associado à tecnologia.

A governança, nesse contexto, não se limita à segurança da informação. Ela também envolve estabelecer critérios para a utilização da IA, definir responsabilidades, avaliar a confiabilidade dos resultados e garantir que as aplicações estejam alinhadas às políticas internas e aos objetivos corporativos.

O avanço da tecnologia exige, portanto, que as empresas desenvolvam mecanismos para conciliar inovação, produtividade e controle de riscos.

Parcerias favorecem avanço da inteligência artificial

O levantamento também identificou diferenças entre empresas que contam com parceiros em suas iniciativas de inovação e aquelas que tentam desenvolver suas estratégias de forma independente. De acordo com os resultados, organizações com parcerias ativas apresentam índice de maturidade 41% superior ao das que avançam sozinhas.

O dado aponta para a importância da colaboração na implementação da inteligência artificial, seja no acesso a conhecimento especializado, no desenvolvimento de soluções ou na integração da tecnologia aos sistemas existentes.

Os resultados apresentados no Universo TOTVS 2026 indicam que o próximo desafio para as empresas brasileiras não é simplesmente ampliar o uso da inteligência artificial, mas transformar a experimentação em aplicações integradas, mensuráveis e alinhadas à estratégia. Para isso, infraestrutura, governança e capacitação profissional precisam avançar em conjunto.

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