Varejo cresce 1,8%, mas margens pressionam operações

IA no varejo brasileiro

O comércio varejista brasileiro acumula crescimento de 1,8% no ano até julho, mas a desaceleração mensal das vendas e a queda na confiança do setor aumentam a pressão por eficiência operacional. Com consumidores mais cautelosos e custos que desafiam a rentabilidade, empresas buscam reduzir desperdícios, integrar canais e elevar a produtividade sem comprometer a experiência de compra.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o volume de vendas do varejo recuou 0,8% em julho, na comparação com junho, considerando a série com ajuste sazonal. Apesar da queda, o setor registrou avanço de 1,8% no acumulado do ano e de 1,6% em 12 meses. Em relação a julho de 2025, houve alta de 1,2%.

A cautela também aparece nas expectativas dos consumidores. Segundo a Sondagem do Consumidor da FGV, divulgada pelo Ministério da Fazenda, o Índice de Confiança do Consumidor caiu 0,5 ponto em setembro, para 84,2 pontos. No mesmo período, o Índice de Expectativas recuou 0,9 ponto, chegando a 85,2 pontos.

Entre as empresas, o cenário também é de maior preocupação. O Índice de Confiança do Comércio, calculado pelo FGV IBRE, diminuiu 2,9 pontos em setembro, para 81,3 pontos, o menor nível desde março de 2021. Nesse contexto, melhorar a produtividade e controlar os custos operacionais ganham importância para sustentar os resultados.

“O varejo chegou a um ponto em que eficiência deixou de ser apenas uma questão interna. Ela impacta diretamente a experiência do consumidor e a capacidade da empresa de crescer com rentabilidade. Quando estoque, vendas, pedidos e informações estão desconectados, a operação fica mais cara e o cliente acaba percebendo isso na ponta”, afirma Juliana Martins, CEO da Nexaas.

Mais do que reduzir despesas, a busca por eficiência envolve identificar etapas que geram retrabalho, desperdício de recursos ou perda de produtividade. O acompanhamento dos indicadores operacionais permite localizar gargalos e dar mais previsibilidade à gestão, especialmente em um ambiente no qual ampliar a estrutura nem sempre é compatível com a necessidade de preservar as margens.

Integração reduz retrabalho entre canais

A conexão entre os canais de venda está entre os pontos que ganharam relevância nessa discussão. Se, inicialmente, a estratégia omnichannel estava associada à presença das marcas em diferentes pontos de contato, o desafio agora envolve garantir que lojas físicas, comércio eletrônico e sistemas internos compartilhem informações de estoque, pedidos e clientes em tempo real.

Um levantamento publicado em setembro pelo MIT Sloan Management Review Brasil destaca essa mudança: o foco deixa de ser apenas estar presente em múltiplos canais e passa a incluir a integração das diferentes etapas da operação.

Na prática, a falta de conexão entre sistemas pode gerar divergências de estoque, pedidos que precisam ser conferidos manualmente e informações inconsistentes entre os canais. Além de consumir tempo das equipes, esses problemas podem resultar em cancelamentos, atrasos e perda de vendas.

“Quando uma empresa precisa conferir a mesma informação em diferentes sistemas ou corrigir manualmente uma divergência de estoque, existe um custo que nem sempre aparece imediatamente no balanço, mas afeta produtividade, margem e experiência do cliente. A integração permite que a equipe dedique mais tempo à venda e ao relacionamento e menos tempo à correção de problemas operacionais”, explica Juliana.

Tecnologia orientada à produtividade

A busca por eficiência não significa necessariamente ampliar a quantidade de ferramentas tecnológicas utilizadas. Uma das prioridades é reduzir a fragmentação dos sistemas e concentrar informações para facilitar a tomada de decisão.

Um estudo da Deloitte sobre as perspectivas do varejo para 2026 aponta disciplina de custos, automação e decisões orientadas por dados entre os fatores relevantes para a gestão de margens. A pesquisa ouviu 330 executivos globais do setor e também destaca a importância da eficiência operacional e da visibilidade sobre a cadeia de suprimentos.

Para Juliana Martins, o investimento em tecnologia precisa estar associado à resolução de problemas concretos da operação, e não apenas à adoção de novas ferramentas.

“A discussão não deveria ser sobre quantas tecnologias uma empresa deve adicionar à operação, mas sobre quantos problemas ela consegue eliminar. Tecnologia precisa simplificar processos, dar visibilidade para a gestão e permitir que o varejista opere melhor com a mesma estrutura”, afirma a CEO da Nexaas.

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