A indústria voltou ao centro da carteira do BNDES. Em 2020 e 2021, o setor chegou a responder por cerca de 17% de tudo o que o banco apoiava. Em 2025, a fatia foi de 30%, no mesmo patamar da infraestrutura. Para 2026, mesmo com a incerteza eleitoral, a expectativa do banco é fechar o melhor ano dos últimos quatro.
O movimento acompanha o Plano Mais Produção, braço de financiamento da política industrial Nova Indústria Brasil, que reúne BNDES, Finep, Banco do Brasil, Caixa e outros bancos públicos. A meta conjunta é de R$ 751,3 bilhões, dos quais R$ 402,5 bilhões cabem ao BNDES. Segundo o painel do banco, as aprovações do BNDES no plano já somam R$ 394,1 bilhões.
Em entrevista ao All Connected Media, João Paulo Pieroni, superintendente de Desenvolvimento Produtivo e Inovação do BNDES, mostra para onde esse dinheiro está indo: saúde, carro híbrido, inteligência artificial e etanol. Ele fala também das montadoras chinesas, da incerteza sobre 2027 e dos erros mais comuns das empresas que pedem financiamento ao banco.
All Connected Media: O BNDES tem dado mais espaço à indústria nos últimos anos. Como 2026 está se desenhando para o setor dentro do banco?
João Paulo Pieroni: Eu respondo pela área de indústria e inovação, que cuida das operações diretas do banco, as de maior porte, acima de R$ 20 milhões ou R$ 40 milhões, dependendo do produto. O BNDES também opera de forma muito relevante pelos agentes financeiros e tem outras áreas, como infraestrutura. Então o que eu comento não é necessariamente o todo do banco.
Desde 2023, o banco deu uma ênfase muito grande à indústria. A partir da política industrial Nova Indústria Brasil, o foco é torná-la mais inovadora, mais produtiva, mais exportadora e mais verde. Esses quatro eixos organizam o Plano Mais Produção, em que BNDES, Finep, Banco do Brasil, Caixa e outras instituições públicas federais se juntaram para atender a indústria.
A participação da indústria chegou a um piso de cerca de 17% de tudo o que o BNDES apoiava em 2020 e 2021. Em 2025, chegou a 30%, no mesmo patamar da infraestrutura. Em 2026, mesmo num cenário eleitoral incerto, vemos uma aceleração. O volume de intenções de investimento que chegam ao banco é bastante elevado, e a expectativa é que este seja o melhor ano da série dos últimos quatro. O percentual exato ainda não é possível prever, porque depende de quanto as outras áreas vão crescer. Mas, olhando a indústria contra ela mesma, o valor vai ser maior.
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Na sua área, quais frentes têm sido prioridade? Elas contam com condições diferentes de financiamento?
Dois dos quatro eixos: a inovação, com a digitalização de processos, e a transição energética, com a descarbonização da indústria. Para eles, a política industrial garante recursos com condições mais incentivadas, pelo programa Mais Inovação e pelo Fundo Clima. O banco continua trabalhando majoritariamente com taxas de mercado, mas nesses programas prioritários conseguimos atrair mais investimento.
Estamos a poucos meses da eleição. Já dá para ter alguma ideia de como 2027 começa, ou as empresas tendem a esperar o cenário ficar mais claro?
Para 2027 não dá para dizer muita coisa. Vai depender bastante de haver continuidade ou não. O banco continua com um peso importante na indústria, mas a ênfase vai depender da próxima administração, de ter ou não recursos incentivados. Isso muda bastante o cenário.
O que posso dizer, ainda sobre 2026, é que temos um programa de caráter emergencial, o Brasil Soberano, em resposta ao aumento das tarifas americanas e ao conflito no Oriente Médio. A demanda tem sido muito grande, tanto para capital de giro quanto para exportação, apoiando as empresas a vender para mercados que não estejam em conflito. Ele vai pesar bastante no resultado da indústria, mas vale até o fim do ano e, a princípio, não continua em 2027.
Os setores que atraem investimento
Começando pela inovação: quanto o banco já aprovou e quais setores mais têm usado esses recursos?
Até agosto, já tínhamos aprovado R$ 45 bilhões para inovação e digitalização de processos. Quando olhamos quais setores usam esses recursos, há uma evolução muito grande da indústria da saúde, principalmente a farmacêutica. Em 2024, o apoio do BNDES ao setor farmacêutico bateu recorde histórico. Somando os projetos apoiados pelo banco, estão previstos 672 novos medicamentos, vacinas, princípios ativos e dispositivos médicos. É o resultado que se espera lá na frente desses projetos de inovação em saúde.
O setor automotivo também voltou a procurar o banco. O que mudou em relação ao ciclo de expansão das montadoras na década de 2010?
O banco teve um período importante de apoio à expansão das montadoras em meados da década de 2010, depois um período com pouco investimento, e agora volta de forma mais focada. Apoiamos expansões de capacidade, mas sobretudo projetos de desenvolvimento de motores híbridos e da plataforma híbrida no Brasil, que aproveita o biocombustível junto com a motorização elétrica. Isso é importante porque o biocombustível é muito brasileiro, muito competitivo aqui e mais sustentável. As empresas relatam que o apoio do banco tem sido importante para trazer esses investimentos para o Brasil, numa rota que é um pouco única nossa, a do carro híbrido. Entre 2023 e agosto de 2026, foram cerca de R$ 15 bilhões, entre montadoras e a cadeia automotiva, como autopeças.
O banco retomou com força também o apoio ao setor de biocombustíveis, com plantas de etanol de milho e de etanol de segunda geração. Temos essa bandeira do etanol como uma grande fonte de energia renovável para o Brasil. Entre 2023 e 2026, foram R$ 18 bilhões em biocombustíveis.
As montadoras chinesas têm anunciado fábricas no Brasil. Elas já aparecem entre os financiamentos do banco?
Ainda não tivemos contratos com montadoras chinesas. Há conversas, várias delas preveem investimento no Brasil e talvez o banco participe, mas esses números são basicamente de montadoras que já estavam instaladas no país. Uma parte das chinesas acaba não tomando recurso porque já tem um custo de captação mais barato. Mas às vezes faz sentido, como estratégia financeira, ter dívida também em moeda local, e não ficar só com o financiamento da matriz em moeda estrangeira.
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E para as multinacionais que querem investir aqui, as condições são as mesmas das empresas nacionais?
Não fazemos distinção entre capital nacional e estrangeiro, desde que a empresa seja brasileira, sob a legislação brasileira. As multinacionais acessam os recursos do banco nas mesmas condições que as nacionais. O que sempre buscamos nesses projetos é trazer novas atividades para o país: como o Brasil pode ser um centro de P&D dessas empresas e receber etapas que agreguem valor, e não apenas a montagem final.
Como a inteligência artificial tem aparecido nos projetos que chegam ao banco?
É uma ênfase que temos dado. O Brasil tem um plano nacional de inteligência artificial, e o BNDES é um ator relevante nele. Apoiamos integradores e desenvolvedores de IA, fabricantes de equipamentos que incorporam a tecnologia e data centers, boa parte deles no Nordeste. Entre 2023 e 2026, somando crédito e participação acionária, já são mais de R$ 6,7 bilhões. Em volume é menor que outros setores porque há muitas empresas de tecnologia pequenas, com projetos menores, mas em número de projetos é bem maior. E praticamente todo projeto de inovação apresentado hoje ao banco tem muito forte essa característica de IA, mesmo nas empresas mais tradicionais.
Eletroeletrônicos e eletrodomésticos aparecem menos nesse mapa. Há projetos relevantes no setor?
De fato, não é um volume tão grande, mas temos operações e feito um esforço junto com a Abinee. Um exemplo é a Electrolux, com um projeto de R$ 300 milhões para melhorar significativamente a eficiência e reduzir o consumo de 26 produtos. Foi um caso interessante, porque havia uma disputa entre as filiais brasileira e indiana, e o investimento acabou vindo para o Brasil, em parte porque os financiamentos do banco eram mais atrativos.
Também vemos investimentos em hardware para data centers, como servidores e outros equipamentos, parte deles de multinacionais que estão instalando atividades no Brasil. O Redata, programa de incentivo aos data centers, também estimula o produto nacional, então esperamos que esse movimento cresça.
Como conseguir financiamento do BNDES
Muitas empresas têm dúvidas sobre como funciona um pedido de financiamento. Por que alguns projetos acabam reprovados?
Toda empresa que quer se relacionar com o BNDES passa por um processo de habilitação. O banco faz o cadastro da empresa e dos acionistas, uma análise de risco de crédito e uma análise jurídica para ver se há algum impedimento. Uma condenação por crime ambiental, tributos em atraso ou um acionista condenado, por exemplo, barram a operação já nesse primeiro filtro, que é reputacional.
Passada a habilitação, a empresa protocola o projeto e nosso time faz a avaliação. Aí os erros mais importantes são o projeto grande demais para o porte da empresa, que quer abraçar o mundo, e a falta de garantias. Temos alguma flexibilidade, mas na maior parte das vezes não, e parte das reprovações acontece porque a empresa não tem ativos reais que sirvam de garantia. Nos programas incentivados, como o Mais Inovação e o Fundo Clima, o principal erro é a dificuldade de escrever um projeto com começo, meio, fim e objetivo claro. Há muitas idas e vindas, e em alguns casos não conseguimos seguir em frente.
É comum as empresas contratarem consultorias para montar o projeto. Isso é necessário?
Não. Ela pode fazer a operação inteiramente com a própria equipe. Pode contratar alguém se quiser, mas não recomendamos nem indicamos. Nossa experiência é que funciona melhor com o time da própria empresa, que tem mais informações, sem passar por um terceiro.
Como a empresa pode chegar com o projeto mais bem preparado e evitar essas idas e vindas?
Interagir bastante com o banco antes. Nossas equipes são treinadas para avaliar a primeira proposta, ainda não formalizada, e apontar o que falta, o que precisa ser reforçado ou se a equipe não está bem qualificada. Fazemos esse trabalho de arredondar o projeto junto com a empresa antes do protocolo, porque depois de formalizado os ajustes ainda acontecem, mas ficam mais travados. Assim, quando o projeto entra, tem mais chance de avançar.
O BNDES costuma ser associado a grandes empresas. Quem nunca operou com o banco também consegue acesso?
Sim. Na área industrial, em 2025, 48% de tudo o que fizemos foi com clientes sem operação com o banco nos últimos cinco anos, e 2026 deve ficar perto disso. O público das operações diretas são médias e grandes empresas, com faturamento acima de R$ 80 milhões, mas principalmente acima de R$ 300 milhões por ano.
Nas operações indiretas, feitas pelos bancos parceiros com o mesmo custo financeiro, o BNDES tem milhares de operações, principalmente com micro e pequenas empresas. Algo pouco conhecido é que cerca de metade de tudo o que o BNDES faz passa por esses agentes financeiros. Ao contrário do senso comum, o banco não faz só grandes operações. Elas são muito importantes, mas há um público grande de micro, pequenas e médias empresas atendido.
Para fechar, que recado você deixa para a indústria?
A indústria tem um papel muito relevante na estratégia do BNDES. Mobilizamos e criamos instrumentos para apoiá-la, com foco em temas que têm um efeito muito importante para o país: inovação, descarbonização e exportação, pensando na competitividade internacional. O banco hoje está bastante preparado para um olhar moderno da indústria, de inovação, de descarbonização e de olhar para fora para ser competitivo.



