O crédito ao consumidor ficou mais curto no varejo brasileiro em meio à permanência dos juros elevados e ao avanço da inadimplência. Em julho, o prazo médio de financiamento para a compra de bens, excluindo veículos, caiu para 16,2 meses, o menor nível para o mês desde 2018.
O dado é do Banco Central e foi compilado pelo economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, em informações repercutidas pelo Brasil 247. Em janeiro, o prazo médio era de 19,5 meses.
A redução ocorre em um cenário no qual consumidores encontram menos opções de parcelamento longo e, em muitos casos, precisam lidar com a cobrança de juros nas compras financiadas. Para o varejo, ao mesmo tempo, o ambiente de crédito ficou mais caro e arriscado, pressionando tanto as condições oferecidas aos clientes quanto o custo de financiamento das próprias empresas.
Crédito mais restrito para consumidores
Segundo Bentes, a redução do prazo pode estar relacionada tanto ao comportamento da demanda quanto às condições da oferta. De um lado, consumidores podem estar evitando compromissos financeiros mais longos. De outro, bancos e varejistas que oferecem crédito próprio podem estar reduzindo os prazos concedidos.
Os dados do Banco Central não permitem separar exatamente os efeitos de cada fator. O cenário de juros elevados, porém, aumenta o custo do crédito e ocorre simultaneamente ao avanço da inadimplência.
Em julho, a inadimplência nessas operações chegou a 11,5%, maior percentual para o mês desde 2017. Os atrasos entre 15 e 90 dias representaram 5,76% do total emprestado, também o maior nível para julho desde 2019.
O custo do crédito também afeta diretamente a operação das empresas. O capital de giro do varejo alcançou taxa média de 25% ao ano em julho, o maior patamar desde 2017.
“Há quase nove anos a situação do crédito não era tão preocupante, seja do ponto de vista do comerciante, seja do consumidor”, observa o economista sênior da CNC.
Parcela maior em prazo menor
A combinação entre juros mais altos e redução dos prazos aparece diretamente no valor das parcelas. Um celular de R$ 1 mil financiado com taxa média de 5,96% ao mês, registrada em julho, e prazo de 16 meses teria prestação de R$ 99.
Em janeiro, quando a taxa média era de 5,39% ao mês e o prazo médio chegava a 19,5 meses, o mesmo produto teria parcela de R$ 84.
A diferença mostra como as condições de financiamento mudaram ao longo do ano. Mesmo em uma compra de valor relativamente baixo, a combinação entre custo maior do crédito e prazo mais curto eleva o desembolso mensal do consumidor.
Para o varejo, esse cenário também pode limitar a capacidade de conversão de vendas que dependem de parcelamento, principalmente entre consumidores mais dependentes do crédito.
Crescimento do varejo perde força
A restrição do crédito acontece enquanto o comércio apresenta crescimento moderado. Até julho, o varejo restrito, que exclui veículos e atacado, acumulava alta de 1,8%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com Bentes, com exceção de 2024, quando o comércio avançou 4,1% em um período de arrefecimento da inflação, o varejo vem crescendo em torno de 2% ao ano.
“É quase um crescimento vegetativo”, afirma.
O desempenho ocorre apesar de indicadores favoráveis no mercado de trabalho, como desemprego em níveis historicamente baixos e aumento da renda. Na avaliação do economista, juros elevados, os efeitos da pandemia e de recessões e a migração de parte do consumo de bens para serviços estão entre os fatores que limitaram o crescimento estrutural do comércio na última década.
Renda mais baixa enfrenta crédito mais seletivo
A dificuldade de acesso ao crédito também não se distribui de maneira uniforme entre os consumidores. Um relatório do Santander aponta que, entre 2023 e 2024, o saldo de crédito livre aumentou nas faixas de renda acima de três salários mínimos.
Para as famílias de renda mais baixa, porém, o saldo ficou praticamente estagnado. É justamente esse grupo que depende em maior medida de recursos como crediário e parcelamento para realizar compras.
O cenário cria uma combinação de desafios para o varejo: consumidores encontram financiamento mais caro e prazos menores, enquanto as empresas também enfrentam aumento no custo de capital e maior risco de inadimplência.
Nesse ambiente, o crédito deixa de ser apenas uma ferramenta de estímulo às vendas e passa a ser uma variável central para a gestão do varejo, tanto na relação com o consumidor quanto no financiamento da operação.



