IA encarece chips e provoca queda recorde no mercado de smartphones

O mercado global de smartphones registrou queda de 22% nos embarques do terceiro trimestre, encerrado em setembro, em meio à disparada dos preços dos chips de memória. Segundo a consultoria IDC, o recuo foi o mais acentuado já registrado para o período, e a expectativa é de que o cenário piore nos próximos meses. Em um ano, os preços dos componentes de memória subiram 350%, impulsionados pela crescente demanda da indústria de inteligência artificial (IA).

A alta dos custos tem pressionado as margens de lucro das fabricantes, que passaram a elevar os preços dos aparelhos, reduzir especificações técnicas e retirar do mercado modelos mais baratos. De acordo com Nabila Popal, diretora sênior de pesquisa da área de dispositivos globais da IDC, as marcas chinesas Xiaomi e Oppo estão entre as mais afetadas, por dependerem de modelos de menor preço e operarem com margens mais estreitas.

Apple e Samsung, por outro lado, estão mais protegidas dos aumentos por concentrarem parte significativa de seus portfólios em smartphones premium, que oferecem margens de lucro maiores.

Demanda por inteligência artificial pressiona oferta de memória

A disparada dos preços está relacionada à disputa pela capacidade de produção entre o mercado de smartphones e o setor de inteligência artificial. Samsung, SK Hynix e Micron, principais fabricantes de chips de memória DRAM e NAND utilizados em celulares, também produzem componentes destinados à infraestrutura de IA.

Um dos produtos mais disputados é a memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, utilizada em aceleradores de inteligência artificial. Esse tipo de memória oferece altas velocidades de transferência de dados e é empregado em sistemas que processam modelos de IA.

Unidades de processamento gráfico (GPUs), como as desenvolvidas pela Nvidia, utilizam grandes quantidades de HBM para armazenar parâmetros dos modelos e manter informações contextuais durante o processamento. A memória é integrada ao mesmo encapsulamento da GPU, próxima ao chip responsável pelos cálculos.

Como a produção de HBM para aplicações de IA é mais lucrativa do que a fabricação de memórias convencionais para smartphones, os fabricantes têm direcionado parte de sua capacidade para atender à demanda do setor.

Segundo Popal, grandes empresas de tecnologia também estão garantindo antecipadamente o fornecimento desses componentes por meio de contratos de longo prazo.

“Os provedores de infraestrutura de IA e de serviços em nuvem, como Google, Meta e Amazon, que estão realizando essas expansões, em sua maioria firmaram contratos de longo prazo, com os fabricantes de memória, de até cinco anos, chegando a 2030 ou 2031. Isso praticamente garante que a produção será destinada a eles a determinados preços”, explica a executiva.

Preço médio dos smartphones deve chegar a US$ 581

A pressão sobre a oferta de componentes deve continuar enquanto os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial avançam. A IDC estima que os gastos globais com essa infraestrutura, incluindo servidores e armazenamento, alcancem US$ 1,21 trilhão por ano até 2030.

Embora os fabricantes de memória estejam ampliando sua capacidade produtiva, o ritmo de expansão pode ser limitado pelos atuais incentivos econômicos. Segundo Popal, os preços elevados favorecem essas empresas e reduzem a pressão para acelerar a oferta.

O impacto deve chegar diretamente ao consumidor, por meio de aparelhos mais caros e de possíveis reduções nas especificações dos modelos de entrada.

O preço médio global de venda dos smartphones já apresenta uma trajetória de alta. “No ano passado, era de US$ 450”, disse Popal à revista Fast Company. “Neste ano, esperamos que o preço médio de venda dos smartphones chegue a US$ 581.”

Compartilhe: