Para a Whirlpool, a Black Friday começa meses antes

Vinícius Tokuda, VP de Supply Chain da Whirlpool

Black Friday e Natal concentram boa parte das vendas de eletrodomésticos do ano, mas, para a indústria, o pico começa a ser desenhado muito antes de novembro. Na Whirlpool, dona das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid, o planejamento para o fim de ano é feito em conjunto com os principais varejistas e envolve meses de análise de histórico de vendas, intenção de compra e campanhas.

“Preparar-se para a alta temporada de final de ano exige que a cadeia de suprimentos funcione como uma engrenagem única entre indústria, fornecedores e varejistas, em um ciclo integrado que dura vários meses e não começa na véspera da Black Friday”, afirma Vinícius Tokuda, VP de Supply Chain da Whirlpool, em entrevista ao All Connected Media.

O objetivo é evitar dois problemas comuns nas datas de pico: a falta do produto no momento da compra e o encalhe depois da data promocional. Para isso, a empresa combina o planejamento com o varejo à capacidade das fábricas de Joinville (SC), Rio Claro (SP) e Manaus (AM), onde usa automação e inteligência artificial para absorver o aumento da demanda, e ao mapeamento das rotas até os centros de distribuição. “A eficiência logística e o rigor no planejamento são os principais pilares para maximizar a disponibilidade de estoque nos períodos de alta demanda”, diz o executivo.

Emprego e renda sustentam a demanda

Para Tokuda, o momento do mercado é favorável à linha branca. “O mercado de linha branca é um termômetro direto da confiança e da renda do consumidor. No cenário macroeconômico atual, vimos a resiliência do emprego e o aumento gradual da renda média sustentando a demanda por eletrodomésticos no país”, avalia.

O consumidor, segundo ele, tem buscado produtos de maior valor agregado, com conectividade, automação e economia de água e energia. A resposta da empresa foi acelerar a troca de portfólio: 75% dos produtos foram renovados no primeiro semestre de 2026, e a linha de refrigeração da Brastemp foi totalmente atualizada neste ano. Na Consul, o foco continua em durabilidade e preço acessível, com modelos inverter mais econômicos e lavadoras adaptadas ao dia a dia. Já a KitchenAid mantém o desempenho no segmento super premium, puxado pelo interesse em design e gastronomia em casa.

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Do Norte ao Sul, com entrega agendada

Abastecer um país do tamanho do Brasil é outro desafio da operação. “Atuar no Brasil é lidar com uma alta complexidade logística e diferentes infraestruturas regionais, de modo que abastecer do extremo Norte ao Sul do país exige inteligência de malha, multimodalidade e parceiros estratégicos”, explica o executivo. A meta, segundo ele, é que o nível de serviço fora dos grandes centros seja o mesmo das capitais.

Um dos recursos usados pela empresa para isso é a entrega agendada, disponível para 98% do portfólio, em até 30 dias. Na avaliação de Tokuda, o supply chain precisa ir além da fábrica e ajudar a criar diferenciais para o consumidor, como esse tipo de serviço e o pós-venda.

Parte da capacidade de responder aos picos vem da tecnologia. Em Rio Claro, a Whirlpool inaugurou um hub de inovação, chamado de Fábrica do Futuro, que conecta robótica, inteligência artificial e análise de dados à produção. Segundo o especialista, a estrutura permite prever a manutenção de equipamentos e controlar a qualidade em tempo real.

No planejamento, os dados ajudam a antecipar variações de demanda e a sincronizar o estoque de matérias-primas com os fornecedores. “A tecnologia e a inteligência artificial entram na Whirlpool com o objetivo claro de atuar como vetor para aumentar a capacidade das pessoas e solucionar dores reais do negócio e do consumidor”, afirma. A empresa também usa algoritmos para analisar informações de atendimento e feedbacks dos clientes, que orientam a evolução dos produtos e do pós-venda.

Eficiência da fábrica à prateleira

A busca por eficiência também passa pela conta de energia, tanto nas fábricas quanto nos produtos que chegam às lojas. “A eficiência energética e a agenda ESG não são projetos isolados, estão integradas às decisões do negócio e ao desenvolvimento de produtos”, afirma Tokuda.

Nas plantas, a Whirlpool diz operar com 100% de energia elétrica renovável, garantida por certificados de energia renovável, os RECs, e reaproveitar a água da chuva. Em Rio Claro, toda a água usada nos testes das máquinas de lavar é tratada e reutilizada. Até a escolha dos fornecedores pesa nessa equação. “Quanto mais nacionalizada e regionalizada é a nossa base de fornecedores, menor é a pegada de carbono no transporte de matérias-primas e peças até as nossas fábricas”, explica o executivo.

Nas lojas, a economia de energia acompanha o que o consumidor tem buscado. Os refrigeradores das duas marcas ganharam versões com tecnologia inverter, e a nova Wash Tower da Brastemp traz uma secadora com bomba de calor, que reaproveita o calor interno e, segundo a empresa, gasta até 50% menos energia.

De olho em 2027

Para sustentar a renovação do portfólio, a Whirlpool afirma investir R$ 500 milhões por ano em pesquisa e desenvolvimento no Brasil, além de aportes nas fábricas de Joinville e Rio Claro para modernizar as linhas e ampliar a capacidade de forma flexível. O país também deve ganhar peso como base exportadora da companhia no médio prazo.

A expectativa para o próximo ano é positiva. “Esperamos a consolidação de um novo ciclo de crescimento para o setor de eletrodomésticos no Brasil”, afirma Tokuda.

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