Consumidores com 45 anos ou mais devem impulsionar os gastos online nos mercados emergentes na próxima década. Até 2036, essa faixa etária será responsável por 51% do crescimento anual das compras pela internet, o equivalente a US$ 4,4 trilhões adicionais. A projeção faz parte de um estudo do World Data Lab (WDL) em parceria com o EBANX, empresa de tecnologia especializada em pagamentos digitais.
O levantamento aponta uma mudança no perfil dos consumidores do comércio eletrônico. Historicamente impulsionado por públicos mais jovens e conectados a dispositivos móveis, o setor deve registrar uma participação crescente das faixas etárias mais velhas. Além disso, a expansão da classe média e a adoção de pagamentos digitais devem ampliar o número de compradores.
Entre as faixas analisadas, pessoas com 65 anos ou mais devem apresentar o maior ritmo de crescimento dos gastos online, com avanço anual de 12,2%. Dessa forma, o envelhecimento da população também tende a influenciar as estratégias das empresas que atuam no comércio digital.
Consumidores mais velhos ampliam presença no e-commerce
O estudo estima que a maior parte dos novos compradores online nos mercados emergentes terá mais de 45 anos até 2036. Desse total, 223 milhões de pessoas estarão na faixa entre 45 e 64 anos, enquanto outras 170 milhões terão 65 anos ou mais.
Para Wolfgang Fengler, CEO do World Data Lab, as empresas precisam considerar essa mudança ao desenvolver suas estratégias de vendas digitais.
“Nos próximos dez anos, pessoas com 45 anos ou mais acrescentarão US$ 4,4 trilhões aos gastos online nos mercados emergentes, o equivalente à metade de todo o crescimento. Algumas delas já fazem compras pelo celular e continuarão comprando dessa forma à medida que envelhecerem. Outras, farão suas primeiras compras pela internet aos 50 ou 60 anos. Os comerciantes que desenvolverem seus sistemas de compra pensando apenas em consumidores de 25 anos, deixarão de atender a esses dois grupos.” afirmou Fengler.
A projeção, portanto, indica que o crescimento não dependerá apenas da entrada de consumidores jovens no ambiente digital. Também será necessário atender pessoas que já compram pela internet e outras que devem começar a utilizar esses canais nos próximos anos.
Apesar dessa transformação, o público jovem continuará relevante. O levantamento estima que 221 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos farão suas primeiras compras online nos mercados emergentes até 2036. Nessa faixa etária, os gastos digitais devem aumentar US$ 1,9 trilhão, com crescimento anual de 8,7%.
Classe média deve ganhar 930 milhões de pessoas
Outro fator que ajuda a explicar a expansão dos gastos online nos mercados emergentes é o crescimento da classe média. Segundo o estudo, esse grupo deve ganhar 930 milhões de adultos até 2036, alcançando 3,8 bilhões de pessoas.
A projeção considera como integrantes da classe média os consumidores com gastos superiores a US$ 13 por dia, com base no critério utilizado pela pesquisa. Parte desse avanço virá do aumento da renda, enquanto outra parcela será resultado do crescimento populacional.
Em contrapartida, a mesma faixa de renda deve diminuir em 37 milhões de pessoas nos mercados desenvolvidos durante o período analisado. Para Marie Elise Droga, diretora de receita do EBANX, essa diferença indica uma mudança no centro de consumo global.
“Uma diferença de quase um bilhão de consumidores em apenas uma década, revela uma mudança clara no centro de gravidade do consumo global e dos negócios internacionais, que está se deslocando para os países onde vive a maior parte da população mundial.” afirmou Droga.
De acordo com o levantamento, os mercados emergentes responderão por seis em cada dez dólares adicionais gastos online no mundo na próxima década. Nesse cenário, os gastos anuais pela internet nessas economias devem passar de US$ 7,1 trilhões para US$ 15,8 trilhões em 2036, um acréscimo de US$ 8,7 trilhões.
A China e a Índia devem liderar a expansão, com aumentos projetados de US$ 4,7 trilhões e US$ 1,3 trilhão, respectivamente. O Brasil aparece na sequência, com previsão de crescimento de US$ 249 bilhões, seguido pela Indonésia, com US$ 243 bilhões, e pelo México, com US$ 191 bilhões.
Compras online avançam além do cartão
Além das mudanças demográficas, a expansão do comércio eletrônico está relacionada à diversificação dos meios de pagamento. Diferentemente de muitos mercados desenvolvidos, nos quais o cartão de crédito ocupa posição central, os mercados emergentes utilizam cada vez mais alternativas digitais e soluções locais.
O estudo projeta que os gastos online de adultos sem cartão de crédito nessas economias aumentarão 130% até 2036, passando de US$ 3,3 trilhões para US$ 7,6 trilhões.
“Isso está diretamente relacionado às inovações desenvolvidas pelo setor financeiro nos mercados emergentes, que criou soluções para uma economia cada vez mais móvel e adaptadas aos hábitos dos consumidores locais. Hoje, essas soluções são conhecidas como métodos de pagamento locais (LPMs, na sigla em inglês) e permitiram que o comércio eletrônico crescesse sem depender dos cartões de crédito, que ainda têm baixa penetração nesses países.”, afirmou Estelita Hass, responsável por Inteligência de Mercado no EBANX.
A pesquisa também estima que apenas 20% dos adultos dos mercados emergentes terão cartão de crédito em 2036, ante 66% nos mercados desenvolvidos. Como consequência, 67% dos novos compradores online dessas economias deverão entrar no comércio eletrônico sem esse meio de pagamento.
Nesse contexto, carteiras digitais, cartões de débito locais, dinheiro móvel e transferências instantâneas entre contas ganham importância. Entre os exemplos estão o Pix, no Brasil, o UPI, na Índia, e o Bre-B, na Colômbia.
Por isso, oferecer opções de pagamento adaptadas aos hábitos locais pode ampliar o acesso ao comércio eletrônico e ajudar empresas a alcançar novos consumidores.
Games, streaming e viagens também devem crescer
A mudança no perfil dos compradores deve beneficiar diferentes segmentos do comércio digital. Embora o varejo lidere a expansão em volume, outras categorias também devem registrar avanços até 2036.
Os jogos eletrônicos devem apresentar o maior ritmo de crescimento, com alta anual de 14,2% e US$ 352 bilhões adicionais em vendas. Em seguida, aparecem software como serviço (SaaS), com crescimento anual de 9,6% e acréscimo de US$ 459 bilhões, e redes sociais, com avanço de 9,7% e US$ 202 bilhões adicionais.
Já os gastos online com viagens devem aumentar US$ 1,2 trilhão, enquanto o segmento de streaming deve registrar um acréscimo de US$ 194 bilhões.
Outro dado chama a atenção: pessoas de 45 a 64 anos devem gastar US$ 318 bilhões com jogos, streaming e redes sociais em 2036, quase 25% a mais do que consumidores entre 15 e 29 anos.
Além disso, o estudo identificou pelo menos 957 milhões de pessoas nos mercados emergentes que já utilizam pagamentos digitais, mas ainda não fizeram compras pela internet. Assim, a combinação entre inclusão financeira, novos consumidores e adaptação dos serviços pode abrir espaço para uma nova etapa de crescimento do comércio eletrônico.



